"Infidelidade" masculina, uma visão.   by  Juarez C. da Silva Jr.  – 2004

Este é  mais um assunto interessante e que merece algumas observações, o artigo não tem pretensão “científica” mas está embasado em teorias e conceitos conhecidos e  amplamente aceitos como “fatos científica e historicamente comprovados” .

INFIDELIDADE  e outros termos

Para começar, um questionamento quanto ao termo “fidelidade”, usual e incorretamente utilizado com sentido de “exclusividade afetivo/sexual”

Segundo Bueno, Francisco da Silveira ; Dicionário escolar da língua portuguesa ,  FENAME 1982 , o termo fidelidade significa : Lealdade; firmeza; exatidão; probidade. Ainda segundo o mesmo dicionário o termo  fiel  significa : Pontual; probo; exato; verídico , firme , leal ; ajudante de tesoureiro ; fio ou ponteiro da balança; árbitro ou juiz.   O termo infidelidade aparece como : traição; deslealdade. E o termo infiel como : desleal ; traiçoeiro, pérfido, pagão, gentio .

Nota-se que a palavra FIEL não aparece como sinônimo de “exclusivo” ou “sexual/afetivamente exclusivo”; apesar do termo INFIDELIDADE aparecer como traição/desleadade (mas de modo geral) justamente em contraposição ao significado “lealdade” da palavra  raiz  fidelidade;  pela lógica a mesma só se justificaria como, forma de se referir a uma “quebra de contrato” com cláusula de exclusividade, (no caso um contrato de casamento onde a exclusividade afetivo/sexual estivesse explicitada) ou mesmo um “contrato verbal” de relacionamento qualquer com a mesma cláusula explícita e ajustada entre as partes envolvidas .

O termo cliente “fiel” é largamente utilizado para se referir a um cliente que freqüenta  assiduamente o mesmo “estabelecimento”, mas isto não quer dizer que ele só freqüente ou possa freqüentar aquele estabelecimento, significa apenas que existe uma preferência natural e regularidade nas “visitas”, não necessariamente exclusividade.....  . É utilizado também para se referir aos freqüentadores ou seguidores de uma determinada igreja (por sinal o termo freguês tem originalmente o mesmo sentido, freguesia é sinônimo de paróquia).

Lealdade ,Consideração,  Sinceridade e Traição

O conceito de lealdade e consideração são muito próximos e por vezes se confundem, mas há diferenças,  o primeiro geralmente está ligado a situações onde existe compromisso, o segundo idem, mas também se aplica em situações onde não há compromissos, mas expectativas..., os de  desleadalde e desconsideração idem.... , já sinceridade está ligada diretamente a lealdade.

LEALDADE, significa no jargão popular “jogar limpo”, ou  seja,  respeitar as regras acordadas, a ética , ser verdadeiro, ser recíproco, manter um relacionamento transparente e sem “surpresas” .

CONSIDERAÇÃO, é respeitar os sentimentos, afeição, lealdade que alguém lhe dedica.

SINCERIDADE , a palavra vem do latim “sine cera” termo que se aplicava a  alguns vasos feitos com uma resina tão transparente que se podia ver o que havia dentro, alguns eram tão transparentes que pareciam “sem cêra”, ou seja, sinceridade quer dizer transparência, mostrar o que realmente é, deixar claro o modo de pensar e de agir, portanto uma pessoa sincera não é a que é “fiel “ e sim a que “não esconde o jogo”,  sinceridade e lealdade são complementares

DESLEALDADE: é oferecer vantagens para concorrentes descompromissados,  as quais não se oferecem para os aliados e parceiros comprometidos, é deixar um parceiro em situação constrangedora em consequência de  mentira, omissão ou  realização de ação que não se esperaria (traição), devido a confiança depositada, enfim deslealdade é não “jogar limpo” .

DESCONSIDERAÇÃO ou falta de consideração, normalmente é aplicado quando uma pessoa NÃO LEVA EM CONSIDERAÇÃO OS SENTIMENTOS DE OUTREM, ou trocando em miúdos , é o ato de agir  de um modo desrespeitoso com a presença ou afeição de alguém, é não se importar com os sentimentos de  alguém próximo  causando-lhe constrangimento, em suma, é agir sem levar em consideração a amizade, afeição ou dedicação do outro.

TRAIÇÃO  é quando se quebra um dos pontos de base da lealdade, é quando se é  DESLEAL,  pois “TRAIR” na realidade é  desmerecer a confiança do outro,  é fazer o não esperado..., é enganar,  portanto só tem sentido usar o termo TRAIÇÃO  quando existe a surpresa no ato realizado, quando existe desrespeito intencional à  cláusula de “contrato” ou favorecimento  ilegítimo a partes estranhas  ao relacionamento,  principalmente quando não houver o merecimento  ou  possuírem um nível inferior ao que já se tem .

Exemplos práticos:  

Deslealdade :  uma pessoa que tendo um compromisso (um acordo de exclusividade ou regras de relacionamento ) com um(a) parceiro(a), se relaciona com outra pessoa sem que o(a) parceira tenha consciência dessa falta de exclusividade, pode ser também o caso de tratamento desequilibrado ex : o marido que leva a amante para passeios caros e situações em que nunca levou ou leva a esposa, ou ainda a mulher que tendo um parceiro com um nível “A” que “lhe ajuda” se relaciona e “ajuda” alguém com um nível “Z” (estilo Robin Hood : tira dos ricos para dar para os pobres) .

Desconsideração:  Uma pessoa que mesmo sabendo que há alguém próximo apaixonado por ela  e pela qual não nutre o mesmo sentimento, beija e “se agarra” na frente da outra... sem qualquer reserva; outro exemplo é o das “paqueras”, trocas de olhares, troca de bilhetes e telefones, aceite de convites para dançar, etc..., quando se está acompanhado..., quem faz este tipo de coisas está desconsiderando o(a) acompanhante, e dizendo  discreta ou claramente que a presença ou sentimentos deste não tem importância nenhuma diante de seus próprios interesses prioritários.

Deslealdade e a Desconsideração se misturam em certas situações, um exemplo seria a da pessoa que além de enganar o outro, o faz de forma irresponsável  ou vil, e coloca o(a) parceiro(a)  em situação constrangedora  ou em risco de saúde,  ao ter relações com qualquer amante efêmero(a)  sem a devida proteção ...,  ex. Além de “trair” o parceiro(a) o faz com um amigo(a) próximo, ou podendo ir para “n” lugares prefere fazer na cama da pessoa traída... ou algo como pegar o carro da namorada para levar a outra para o motel .

Traição :  abandonar um parceiro dedicado e recíproco  por outro(a)  com nível  inferior de reciprocidade ou  com vantagem através de concorrência desleal, ou ainda “ceder” algo “valioso” a outra pessoa sem ou com menor merecimento quando se nega a mesma coisa a quem em princípio deveria tê-la por direito ou merecimento,  ex.  Trocar a companheira dedicada de  anos por uma mais jovem ou os casos citados em deslealdade e desconsideração, fazer sexo oral ou anal com o amante quando se nega a fazer com o companheiro.

Sendo assim a  desconsideração e a deslealdade é que na realidade  são realmente  nocivas aos relacionamentos  e não a não-exclusividade .

Portanto na nossa visão o termo “infidelidade” (e outros) é que  tem sido erroneamente  empregado como sinônimo de  “não exclusividade” ou deslealdade / desconsideração  o que são coisas bem diferentes....

Pelo visto acima  podemos então afirmar que é possível ser  “fiel” mesmo não sendo “exclusivo”,  e que ser  “não exclusivo” não implica necessariamente em ser desleal , infiel ou “traidor”...; tudo depende do “contrato ajustado” e do nível de “transparência” e lealdade / consideração  envolvidos na relação.

A NATUREZA

Os humanos são seres vivos cientificamente classificados no reino animal, como vertebrados, mamíferos e evoluídos dos primatas (macacos), no estágio de evolução atual  chamado  HOMO SAPIENS SAPIENS.

Em toda espécie animal (incluindo o homem) existe uma “programação” de perpetuação da espécie através da reprodução, isto vem no DNA (genes) e alterações genéticas significativas levam milhões (sendo otimistas milhares) de anos e diretamente ligadas a alterações ambientais.... ; nos mamíferos geralmente a “ordem genética” pré-programada nos machos é “peguem todas” ou seja quanto maior o número de fêmeas copuladas maiores as possibilidades de fecundação e consequentemente de reprodução.....

A grande maioria dos mamíferos na natureza vivem em grupos/famílias e em esquema de poligamia masculina (um macho com várias fêmeas) , o contrário existe em raras espécies como por exemplo as toupeiras (que não são famosas exatamente pela inteligência....) e vivem em estrutura organizacional matriarcal muito parecida com a de insetos como formigas e abelhas.

Portanto o DNA dos machos da espécie humana também está impregnado deste “pegue todas que puder”, faz parte da natureza humana masculina. O ser humano porém possui a inteligência avançada... que permite-lhe entre outras coisas “inventar” e inclusive contrariar a natureza..., por exemplo, comendo coisas que não existem naturalmente na forma ingerida, se deslocar por ar  (modalidade naturalmente reservada aos pássaros) ou sob a água (modalidade naturalmente reservada a peixes , mamíferos aquáticos e aves como os pingüins) .

A inteligência permite também criar comportamentos coletivos ou individuais. As religiões “modernas” advindas do judaísmo - cristianismo colocam a monogamia como comportamento coletivo e individual a ser adotado pelas pessoas, mas a “programação genética” manda o contrário.... ou seja o Homem (e ai me refiro ao macho da espécie) é obrigado a “lutar” contra sua natureza por motivos sociais e religiosos, mas de modo geral a própria “sociedade” sabe que esta imposição é anti-natural, e é extremamente “tolerante” com a “poligamia física” (envolvimento físico com várias mulheres) mas insiste na “monogamia moral” (envolvimento emocional e conjugal com apenas uma mulher) .

Ainda  seguindo as regras da natureza  os mamíferos machos possuem um “sentimento de posse” muito grande, pois  é o que naturalmente lhes motiva  a proteger e zelar pelo “seu” grupo/família  e  “território”, a “exclusividade sexual” das fêmeas lhes garante que a prole (filhos) são seus..., sendo seu dever prover e protege-los...., não sendo portanto da natureza masculina “dividir” as “suas” fêmeas com os outros machos (mas podem “atacar” as fêmeas dos outros...),  já as fêmeas são sabiamente programadas pela natureza a buscar o “melhor macho”, o “mais poderoso “, aquele com melhores condições de se reproduzir (virilidade), padrão genético (saudável, forte)  e recursos (território, habilidade para prover (bom caçador , lider  e “defensor”) e naturalmente são predispostas a não só conceder exclusividade sexual ao macho escolhido como a dividi-lo pacificamente com as outras fêmeas do grupo.  

Na espécie humana a natureza “pede” isto também...,  mas as já  citadas “convenções” da moderna civilização excluem o conceito de “harém” e tentam submete-la  ao conceito de monogamia , o que é subversiva e na prática burlado pela maioria dos homens, que instintivamente seguem o “apelo de sua natureza” , quanto as mulheres o mundo moderno fez com quem as mesmas  “flexibilizassem” as exigências  com  relação aos “machos”..., não buscam  “caçadores de verdade” mas sim provedores eficientes (bons “caçadores de dinheiro”) para mante-las e a eventuais filhos em troca de “exclusividade sexual/afetiva”, as outras exigências como força, um padrão genético favorável (beleza) e a capacidade reprodutiva (virilidade) ainda “mexem com o instinto básico da fêmea” porém tiveram o apelo reduzido principalmente para as mulheres ditas “dependentes” que vêem no homem antes de tudo um provedor.(apesar da tendência de crescimento das mulheres ditas independentes e “bem - sucedidas” que podem e buscam e valorizam justamente o oposto das dependentes...).

 

A CULTURA “PRÓ-MACHO”

As culturas antigas e primitivas de modo geral sempre admitiram a poligamia masculina naturalmente , a própria Bíblia (base da cultura ocidental) tem como patriarcas, reis e profetas polígamos como Davi, Salomão, etc..,  e descreve inúmeras situações em que a poligamia aparece como prática comum nas antigas sociedades, porém sempre ligada a homens com “poder” e “posses” (capacidade de provimento). A atual cultura Muçulmana também admite a poligamia no casamento com até 4 mulheres, porém também vinculada a capacidade de provimento do homem.

Nas culturas tribais de vários países é comum a poligamia masculina, o contrário é raro ( pelo meu conhecimento apenas em uma ilha na Oceania  as mulheres podem casar com vários homens... e também já ouvi que é comum em algumas tribos sul-americanas as mulheres terem vida sexual com quantos e quais homens elas quiserem (mas antes de casar).

Nas culturas orientais de  maneira geral antes da “ocidentalização”, a figura do harém (para os mais poderosos), ou a convivência familiar com pelo menos duas mulheres era muito comum, e em alguns países como a China, apesar da poligamia ter sido oficialmente banida e estar sendo combatida, é comum ver homens “casados” com duas ou três esposas, na África idem .

Nos países latinos, apesar da prática religiosa comum (católica em sua maioria) e a convenção social formal condenarem a “infidelidade“ tanto masculina quanto feminina; existe uma  “tolerância popular” muito grande com relação a “infidelidade”  masculina, e de certa forma até uma valorização da figura do “ macho garanhão”, principalmente quando este não possui “compromisso formal” como o casamento “de direito” ou “de fato” .

As mulheres de modo geral apesar dos avanços e das conquistas alcançadas, da liberdade advinda da revolução sexual e da possibilidade de controle da natalidade,  mantém um comportamento mais “exclusivista” com relação a parceiros, incentivado em parte pela educação “pró - machista” , mas na realidade baseado principalmente na sua programação genética, na sua “natureza”.    

 

CONCLUSÕES

A idéia do artigo não é ser uma “ode a “infidelidade” masculina “ mas apenas tentar explicar o seu motivo e servir de base para uma reflexão ampliada sobre os relacionamentos afetivos e a inutilidade de  se tentar estabelecer uma relação em que a eliminação deste “defeito de fábrica masculino” adquira peso maior que o necessário, obscurecendo os pontos realmente importantes para um bom e duradouro relacionamento.

É muito verdadeiro o dito popular “As mulheres precisam de um motivo para “trair”, os homens só precisam de uma oportunidade....”,  afinal, só estão seguindo o apelo de sua natureza.... negar ou ignorar isto  não parece ser muito inteligente... .